
Muito se tem noticiado a respeito da ameaça do Google de encerrar suas operações na China, após ter detectado ataques digitais contra contas do Gmail de ativistas de direitos humanos.
Embora os detalhes dos ataques não tenha sido revelado, a empresa já teria informações suficientes para concluir que tais ataques tenham originado de território chinês e, eventualmente, tenha sido mão de obra do próprio governo chinês, famoso pela sua política de censura.
Não se pode dizer que o Google não sabia com quem estava lidando, ao aceitar as regras de censuras infringidas ao seu mecanismo de busca quando da estréia do www.google.cn. Termos de busca tais como “massacre na Praça da Paz Celestial” (Tiananmen Square) são expressamente censurados: veja a diferença entre uma MESMA busca no Google.com e no Google.cn por “Tiananmen Square protest”. A americana mostra os tanques, os corpos mutilados; a chinesa mostra uma praça em festa, colorida e cheia de pessoas e ciclistas.


O Blogoscoped inclusive fez uma análise e detectou que 9% de um universo de 10.000 termos utilizados continham alguma censura. Estima-se que haja cerca de 30.000 censores-policiais-internéticos-chineses e comentários críticos em grandes portais, fóruns e blogs são em geral apagados em questão de minutos. A esperança do Google era que, apesar da censura na busca, o volume de informações e serviços dos demais produtos da companhia – Youtube, Reader, Gmail, etc – fossem mais uma força no sentido de disseminar o conhecimento do mundo (e vender links patrocinados) mais crescente mercado de Internet do planeta. Ao contrário, pelo visto, os censores é que estão usando a ingenuidade dos usuários-ativistas para entrar nas suas contas de produtos Google e detectar suas movimentações.
Independente das relevantes questões humanitárias ou de combate à censura, acho que vale analisar este assunto sob algumas outras perspectivas, em particular sem se ater ao Google (buscas) em si, mas também olhando outros setores de Internet (redes sociais, instant messaging, leilões e vídeos) e ao desempenho (na verdade, fracasso) das empresas americanas no mercado chinês.
Redes Sociais


Hoje em dia, pelo menos nos EUA, redes sociais são sinônimos de Facebook e mySpace. Na Índia e no Brazil, rede social é ainda sinônimo de Orkut. Pois, bem, o Facebook tem cerca de 325 milhões de usuários em todo o mundo. Na China, o maior player de redes sociais se chama QQ, da empresa Tencent, com mais de 375 milhões. Só na China.
Vídeos



Vídeo é sinônimo de Youtube. Certo !? Bem, não na China, onde outros portais tais como Youku.com e 56.com têm forte presença e conteúdo, com números incríveis de visitantes únicos e uploads diários.
Leilões


Sair da China ? Pergunte ao eBay, por que eles pularam fora ainda nos idos de 2006. Após terem mais de 90% de mkt share, eles perderam fôlego e espaço para o concorrente Taobao, da empresa AliBaba, e chegaram a ter menos de 30% de mkt share quando venderam suas operações.
Buscas


Chegamos então à questão dos buscadores. O desempenho do Google na China é, no melhor dos casos, pífio. Num mercado de 384 milhões de usuários, o Google tem cerca de 35% de mkt share, quase a metade do seu rival local direto, Baidu, com 60% de mkt share (e fortes laços com o Governo Chinês). Segundo analistas, o mercado chinês contribui com cerca de míseros 2% das receitas da companhia.
Conclusão
China é um mundo à parte. Não apenas por questões geográficas, de idioma e das idiossincrasias políticas, mas também em termos de Internet. As companhias ocidentais definitivamente não têm feito grande impacto no mercado chinês, quase que completamente dominado por competidores locais. E Internet tem uma capacidade avassaladora de domínio por players majoritários, que já dominam grande parte do mercado, em função da força de marketing das conexões pessoais. Em geral, não se compra um carro porque outras pessoas têm o mesmo modelo, mas, ao contrário, associa-se a sites de redes sociais e de instant messaging porque seus amigos já estão usando. O site com maior escala e usuários em geral atrai o maior tráfego, dominando geral.
Entretanto, perde a China. Embora no curto prazo outras companhias ocupem o vácuo, sem dúvida é um retrocesso não poder contar com a usina de idéias, serviços e inovação em que se transformou o Google.
Retirado do blog do Fabio Povoa